Era um Redondo Vocabulário | Redondo em destaque na Crónica de Fernando Alves sobre o novo projeto: “Sons da Vida, Ecos de Memória”
Fernando Alves, uma referência do jornalismo radiofónico Português, autor de programas como “O Postigo da Noite” ou, mais recentemente, “Sinais” na TSF, que inspiraram várias gerações de jornalistas e alimentaram nos ouvintes a paixão da rádio, descreveu assim o nosso novo projecto: “𝐒𝐨𝐧𝐬 𝐝𝐚 𝐕𝐢𝐝𝐚, 𝐄𝐜𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐌𝐞𝐦ó𝐫𝐢𝐚”.
“As notícias que chegam da vila de Redondo estão mais do que um passo adiante da intenção, permitem que eu estenda já um larau no chão da crónica ou abale daqui a encomendar uma sopa de cação na Taberna do Fim do Mundo, com lugar virado às belas talhas de azeite antigas e aos ferros de engomar a carvão que repousam nas prateleiras.
Estendo sem demora uma vénia ao presidente David Galego que levou por diante a ideia, que a pôs em marcha, que lhe deu corda, esperando que, em se lhe referindo, não tenha dito nem diga nunca, nem deixe que digam na sua presença, ter ela sido em algum momento \"implementada\". Trata-se de coisa séria, sabedoria pura com dois ou três gerúndios e um raminho de salsa.
Não é coisa que se \"implemente\".
O autarca de Redondo pôs, pois, em andamento a máquina que vai recolher e manter vivos os sotaques, a memória oral, os sons tradicionais, as vivências e os modos de fazer e de contar vindos do mais fundo dos dias em que o largo era o centro do mundo. O presidente David Galego explica ao que vem: trata-se de reforçar a identidade recuperando a memória, erguendo e consolidando um arquivo audiovisual no qual caibam o pregão do almocreve e a arte das mãos de Xico Tarefa, oleiro de Redondo, que a aprendeu na olaria do mestre Ezequiel Campainhas. O redondo vocabulário.
O Redondo tem um largo e suaves ditongos. E agora que o largo já não é o centro do mundo, colocam-se urgências tamanhas, assim haja vagar.
O presidente David Galego sabe que se este trabalho não for feito agora será demasiado tarde. Há tempos, o município já dera um aconchego ao núcleo de arte pastoril da magnífica colecção de Carmelo Aires. Agora espalha-se no ar este perfume de gerúndios, misturado com o dos coentros. Ficam mais viçosas as ruas floridas. E, como previam umas saias de um famoso filho de Redondo, haverá ainda quem queira dar uma filha a um louceiro?
O presidente Galego acredita que, se este registo não for feito agora, \"daqui por 20 ou 30 anos, já não temos essa mesma capacidade de encontrar o que é tão genuíno e tão nosso\". Assim não fechem as tabernas nem se percam os cantadores das trancanholas. E não se perca a arte das migas de espargos, nem esmoreçam as cores da louça espalhada pelo chão das olarias. Assim haja vagar, tamanha é a urgência.”
Oiça aqui o episódio do podcast “Sinais” dedicado ao nosso projeto.
28 de Maio